quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Inferno de Nina

Meio dia de um dia efêmero. Nunca mais esquecerei as palavras ditas naquele corredor, que de repente ficou estreito, longo, escuro. A mulher foi entrando por aquele corredor, e eu num ímpeto ia seguindo-a. Nina era o nome daquela mulher magra, com grandes olheiras, nariz comprido, lábios finos e ressecados. Ela andava por aquele corredor como que levada por misteriosa onda. As lágrimas que caíam dos grandes olhos esverdeados inundavam o corredor, que ficava cada vez mais, estreito, escuro e molhado. Ouvía-lhe os gritos surdos, via o terror e o desespero invadindo os frágeis ossos e pele daquele corpo andarilho. Nina, ao longe, já sentia a quentura enxugar-lhe as lágrimas que caiam copiosamente, ouvia gemidos e lamentos de almas tão torturadas quanto a sua.
Quando naquele estreito corredor só havia espaço para aquele corpo raquítico; ali, bem ali, encontrava-se uma longa escada, da qual já se podia ver fogo em brasas. Ela foi descendo degrau por degrau, como que arrastada para aquela fornalha de gelo, sim arrastada por aquele caminho, porque era a única coisa possível. Mas, ao final da escada tudo era claro como o dia lá fora. Nina viu a si mesma, rindo e abraçando pessoas. Vestia um lindo vestido azul, sandálias brancas, cabelo ao vento, trocava alianças com o homem de sua vida. Todos festejavam e cumprimentavam os noivos pelo casamento e pelo bebê que já estava a caminho. Olhou para o lado e viu o nascimento de seu primeiro filho, tão lindo, branquinho como a neve. Virou-se e viu o som da ambulância, e logo dos aparelhos daquele grande salão branco. Viu sua mãe, seu marido, dia de visita, todos os familiares e amigos.
Como em um filme cheio de efeitos especiais, lá estava ela de volta àquele corredor, Nina descobrira onde fica o inferno, ardente e frio inferno. Nas suas dores e condenações, no seu desespero, no seu terror mais íntimo, ela viu a morada do inferno. E só o que se ouvia agora eram aquelas palavras, ditas e repetidas com um eco de assombrar qualquer espírito. O calor e o frio aumentando, gritos, choro, delírios e um tombo. Nina caída, acuada, muda. Ouviu uma vez mais as palavras; duras e cruéis palavras, ditas sofregamente pelo médico e sentidas como lâminas afiadas cortando seu coração em mil pedaços: “Mãezinha, o nosso menininho já não pertence a esse mundo...”
(Sônia S. Ferri)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Velho Tropeiro


Hoje resolvi seguir os conselhos da professora Tânia e fui ver a lua, com seu São Jorge, o dragão, a lança e "tudo mais"... Me transportei (ou foi ela que me transportou?), para outro espaço, onde eu era um velho senhor encimesmado, de pés descalços, pitando um cigarrinho de palha, tomando um chimarrão amargo e quente... Me sentindo já meio "João Cardoso", me dirigi a São Jorge e disse: "Apeia meu santinho, desce aqui um pouquinho que o mate já está cevado. Vem prosear um tantinho com esse gaúcho que está tão longe do pago. Mas o santinho "amuou" e disse desse jeitinho: Deixa proutrora esse mate, que hoje estou muy cansado, de pelear com esse dragão, na lua que é meu pago..." (Sônia S. Ferri)

domingo, 12 de julho de 2009

Juramento de Hipócrates

Juramento de Hipócrates (extraído de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Juramento_de_Hip%C3%B3crates)

"Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça".
(Hipócrates)


Ah Hipócrates! Se pudesses ver hoje com que "louvor" alguns médicos (e já não se pode dizer que se trata de "uma minoria", pelo acréscimo com tem acontecido o genocídio de crianças e em alguns casos de suas mães), tem cumprido o juramento atribuído a ti, terias tanto do que te envergonhares.
A saúde do Brasil está em "estado de calamidade pública", assim como a segurança.
Meu Deus! Algum ser humano tem o poder de mudar isso? Tem alguém que manda nesse país, com poder suficiente para interditar a saúde dos estados brasileios? E não me venham dizer que o poder está na mão do povo, porque o povo não tem competência nem para cuidar cada um de si mesmo.
Quantas mães mais terão que morrer com seus bebês ainda no ventre? Quantas mães vão ter que perder seus filhos porque não há "L E I T O" disponível nos hospitais públicos? E que por falta de leitos como desculpas, os "M É D I C O S D E S T A T U S" vão deixar de prestar o atendimento aos que necessitam, atendimento esse que eles juraram dar: "Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva". Mas escrever o nome de uma maternidade e como chegar lá de ônibus no antebraço de uma gestante com a bolsa rompida, é o mesmo que dar-lhe substância abortiva.
"Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça". Rogo a Hipócrates que isso se cumpra com os "infelizes da medicina", que estão deixando nossas crianças morrerem, que estão deixando nosso povo morrer sem nenhum socorro, somente o descaso e o abandono...
Rogo a força superior e suprema que existe (preciso acreditar que exista essa força), que dê capacidade de reação a esse povo que dizem ter o poder de mudar o que está errado. E que essa força desça com pontaria certeira sobre os governantes que preferem fechar os olhos à ir em socorro de quem tanto necessita.
Ah Hipócrates...

(Sônia Smijevski Ferri)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Beleza a qualquer preço... (Alma minha encontrada em tanta simplicidade...) Sônia S Ferri


Enquanto ouço o noticiário na TV, navego na internet lendo e respondendo e-mail(s), dando uma espiadinha no orkut e atualizando o blog.
Novamente, me pego indignada com "mais uma morte", por causa de lipoaspiração, em função da "beleza a qualquer preço".
Então me pergunto? O que é "beleza"? O que é afinal beleza, para essas pessoas que se sujeitam a perder a vida por uma corrida insana em busca do corpo perfeito? E para mim, o que é beleza para mim, que me revolto em ver como as pessoas são fúteis?
Ah, a beleza... formosura, coisa bela (segundo o dicionário).
Ah, a beleza... Um prato bem arrumado com muitos "negrinhos" (ou brigadeiro, como queiram), lindo demais!!! Uma macarronada amarelinha com aquele molho vermelinho, muito queijo ralado (hummmm) e um macinho de cheiro verde para enfeitar!!! Um pudim de chocolate, todo marronzinho (uiasss)!!! Uma mulher com corpinho redondinho e nele escrito "gostosa" em braile (leia-se: algumas celulites...hihihihi).
Um homem cheirosinho com uma salienciazinha na região abdominal (leia-se: barriguinha de cerveja...hehehehe).
E finalmente...
Ah, a beleza... seios durinhos pra sempre, barriguinha sarada, bumbum empinado, coxas roliças, peito largo, bíceps, tríceps, tanquinho, viagra... Ufa! Cansei.
Isso não é beleza, isso é tristeza.
Por favor, olhem mais para o espelho interior de cada um, façam muito exercício sim porque é saudável (apesar de eu não conseguir nem pensar em academia), mas exercitem mais o cérebro e pratiquem mais a solidariedade e o amor ao próximo, mesmo que esse próximo não esteja tão próximo assim.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009


Juventude eterna
(Martha Medeiros)

Essa história que eu vou contar agora aconteceu com uma mulher inteligente que estava fazendo uma palestra.
Diz ela: Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecível...
A platéia inteira fez um 'oooohh’ de descrédito.
Aí fiquei pensando: pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho?
Onde é que nós estamos?
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ”juventude eterna”.
Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada.
A fonte da juventude chama-se mudança.
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos,
é ter disposição para guinadas.
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa? Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho.
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza.
Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. Olhe-se no espelho...

“Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para voltar sempre inteira”
Cecília Meireles

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Rearranjando a lucidez em meio ao caos e a loucura!!! Sônia S Ferri




Entre tonterias e ânsias.....
êxtase... excitação....
felicidade....
medo....angústia....
ansiedade...
Carros, buzinas....
loucura e caos....

Tento rearranjar a lucidez...
E a visita chega novamente...
sorrateiramente...
bate a porta...
E invade tudo...
E deixa um vazio aterrador...