sábado, 26 de setembro de 2015

O ser do assalto

Ser assaltado é: ficar em pânico, sentir um horror tão grande que o corpo todo treme e na cabeça fica um vácuo... por um tempo, aliás por muito tempo... O que complica é como ficamos depois do assalto, é o que sentimos depois de uma noite de sono com a ajuda de um rivotril... vai caindo a ficha devagarzinho... a cabeça gira, o peito dói, as pernas amolecem, mas a dor da alma é o que fica de pior... Tudo que foi dito e feito começa a vir como flashs desconexos... Quebram tudo, rasgam tudo, viram o lixo, as gavetas, as portas dos armários, sujam tudo, arrancam todos os cabos e fios da parede, espancam pelo prazer de se sentirem poderosos, humilham para se sentirem por cima, lá no alto da sua insignificância... Eles nos destroem emocionalmente... eles destroem nosso sistema nervoso... não nos deixam descansar, dormir, raciocinar direito... e o pior, alguns de nós, depois da humilhação, ficam tão espezinhados, tão massacrados, que só conseguem pensar em destruir seus algozes, pensam em nunca mais deixar que algo assim aconteça, pague o preço que tiver de pagar... Destroem nossa auto estima e matam um pouco da pureza, da inocência, da bondade que tínhamos... Nós estamos reféns do medo, do pânico, da violência, da falta de segurança, da falta de vontade política, do total abandono dos governantes... estamos trancafiados, confinados em nossos trabalhos em nossas casas, enquanto a pista fica livre para esses seres abjetos transitarem livremente por aí tocando o terror... Podemos blindar nossas casas, nossos carros, mas não podemos blindar nossa carcaça contra uma bala qualquer, uma facada qualquer, uma paulada qualquer... Nós estamos reféns dessas criaturas peçonhentas, porque temos muito a perder. E não estou falando somente dos bens materiais, do dinheiro... estou falando da dignidade, da paz de espírito, da vida (que é o mais importante). Mas, eles acham que o mais importante que temos é o dinheiro que tiram de nossas carteiras, que é o celular que levam para trocar por qualquer droga... por isso, alguns matam mesmo sem ter motivo, porque pensam que nossas vidas, assim como as deles, não tem valor nenhum... Mas, quem não tem nada são eles. Não têm nenhuma dignidade, porque um ser digno não precisa tirar nada de ninguém, vai a luta e conquista (pode ser pouco, mas sempre vai ser o suficiente). Eles nunca terão paz de espírito, porque quem precisa tirar dos outros para ter, quem precisa bater pra mostrar força e poder e quem precisa humilhar pra se sentir por cima, nem mesmo sabe o que é paz de espírito. Esses, nem mesmo vida tem, porque seres que precisam estar sempre igual a urubu em cima da carniça, sempre em estado de alerta, sempre prontos pra matar ou morrer, não vivem; vegetam a custa da seiva daqueles de quem eles tiram o que querem e da maneira que querem. Acham que nos tiram tudo, e não sabem que tudo é nada... acham que nos deixam nada, mas esse nada é tudo de que precisamos para recomeçar... Essas criaturas sequer podem ser chamadas de gente, de ser humano, porque eles não têm o mínimo necessário para serem humanos, serem gente... eles não tem moral, aliás esses são os seres amorais, eles sequer existem, estão por aí como trapos, escrotos, sem rumo, sem destino, sem esperança, sem luz, sem nada... Estamos vivendo numa sociedade em que alguns distorcem o que seja “direitos humanos”, mas eu vos digo: direitos humanos são para “humanos direitos”... essa balela de que bandido vira bandido por conta da desigualdade social é discurso velho e ranço... as oportunidades estão aí para todos, é só ter vontade e ir a luta... sempre temos algo a oferecer a alguém que esteja querendo ou precisando... seja um salgado com suco, seja uma pipoca, seja um picolé caseiro, seja um braço forte para carpir ou esfregar uma roupa, seja um doce na esquina, seja uma aguinha bem gelada no ponto do ônibus, seja uma lixa e uma tinta para um banquinho velho, seja aquela fruta numa banquinha na esquina de casa, enfim, são infinitas as possibilidades para quem tem vontade e um pouco de criatividade... Mas, algumas pessoas querem tudo fácil, sem se darem conta de que o fácil é a coisa mais difícil... querem uma mão que os tire da inércia, mas nem sempre isso é possível, então sejamos cada um a própria mão a nos levantar e fazer tudo diferente... Estamos vivendo tempos difíceis, com governantes mais bandidos que esses que nos assaltam, porque os governantes nos roubam na surdina, na gasolina, na roupa, na comida, na ida e na vinda, na morte e na vida, até nos deixarem só pele e osso e dedos para digitarmos os números que lhes pertencem nas urnas, das quais eles são guardiões fiéis. Eles nos sugam a alma e nos deixam na lama. E tudo que sobrar, eles permitem que abutres nos tirem a qualquer hora em qualquer lugar e de qualquer jeito... estamos a mercê de qualquer um, de qualquer dois, de qualquer coisa... (Ferri, Sônia S)

sábado, 1 de junho de 2013

Tentando retomar-me após longos dias vazia de palavras, de sentimentos, de vida...

sábado, 23 de julho de 2011

Procurei tanto essas palavras... confesso que as encontrei, mas não consegui juntá-las do modo como "Bruno Gouveia" fez... ele conseguiu dar sentido às palavras soltas que jamais conseguiria dar... mas, senti... ah como senti...





Partida



A morte de um filho

é uma gravidez às avessas:

volta para dentro da gente

para uma gestação eterna

Aninha-se aos poucos

buscando um espaço;

por isso dói o corpo;

por isso, o cansaço

E como numa gestação

ao contrário, a dor do parto

é a partida, de volta;

reviravolta na sua vida.

E já começa te chutando,

tirando o sono,

mexendo os órgãos,

lembrando ao dono

que está presente, te

bagunçando o pensamento,

te vazando de lágrimas e

disparando o coração.

A morte de um filho é essa

gravidez ao contrário,

mas, com o tempo,

vai desinchando

até se transformar

numa semente de amor

e que nunca mais

sairá de dentro de ti.

(Bruno Gouveia)





Realmente a morte de um filho é uma gravidez ao contrário, eterna...

de tempos em tempos vem a dor do parto...

e ele nasce pra dentro e nunca mais nos deixa...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Os olhos que me olham
Procuram aventura... emoção...
Esses olhos que me penetram
São olhos de puro tesão

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Inferno de Nina

Meio dia de um dia efêmero. Nunca mais esquecerei as palavras ditas naquele corredor, que de repente ficou estreito, longo, escuro. A mulher foi entrando por aquele corredor, e eu num ímpeto ia seguindo-a. Nina era o nome daquela mulher magra, com grandes olheiras, nariz comprido, lábios finos e ressecados. Ela andava por aquele corredor como que levada por misteriosa onda. As lágrimas que caíam dos grandes olhos esverdeados inundavam o corredor, que ficava cada vez mais, estreito, escuro e molhado. Ouvía-lhe os gritos surdos, via o terror e o desespero invadindo os frágeis ossos e pele daquele corpo andarilho. Nina, ao longe, já sentia a quentura enxugar-lhe as lágrimas que caiam copiosamente, ouvia gemidos e lamentos de almas tão torturadas quanto a sua.
Quando naquele estreito corredor só havia espaço para aquele corpo raquítico; ali, bem ali, encontrava-se uma longa escada, da qual já se podia ver fogo em brasas. Ela foi descendo degrau por degrau, como que arrastada para aquela fornalha de gelo, sim arrastada por aquele caminho, porque era a única coisa possível. Mas, ao final da escada tudo era claro como o dia lá fora. Nina viu a si mesma, rindo e abraçando pessoas. Vestia um lindo vestido azul, sandálias brancas, cabelo ao vento, trocava alianças com o homem de sua vida. Todos festejavam e cumprimentavam os noivos pelo casamento e pelo bebê que já estava a caminho. Olhou para o lado e viu o nascimento de seu primeiro filho, tão lindo, branquinho como a neve. Virou-se e viu o som da ambulância, e logo dos aparelhos daquele grande salão branco. Viu sua mãe, seu marido, dia de visita, todos os familiares e amigos.
Como em um filme cheio de efeitos especiais, lá estava ela de volta àquele corredor, Nina descobrira onde fica o inferno, ardente e frio inferno. Nas suas dores e condenações, no seu desespero, no seu terror mais íntimo, ela viu a morada do inferno. E só o que se ouvia agora eram aquelas palavras, ditas e repetidas com um eco de assombrar qualquer espírito. O calor e o frio aumentando, gritos, choro, delírios e um tombo. Nina caída, acuada, muda. Ouviu uma vez mais as palavras; duras e cruéis palavras, ditas sofregamente pelo médico e sentidas como lâminas afiadas cortando seu coração em mil pedaços: “Mãezinha, o nosso menininho já não pertence a esse mundo...”
(Sônia S. Ferri)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Velho Tropeiro


Hoje resolvi seguir os conselhos da professora Tânia e fui ver a lua, com seu São Jorge, o dragão, a lança e "tudo mais"... Me transportei (ou foi ela que me transportou?), para outro espaço, onde eu era um velho senhor encimesmado, de pés descalços, pitando um cigarrinho de palha, tomando um chimarrão amargo e quente... Me sentindo já meio "João Cardoso", me dirigi a São Jorge e disse: "Apeia meu santinho, desce aqui um pouquinho que o mate já está cevado. Vem prosear um tantinho com esse gaúcho que está tão longe do pago. Mas o santinho "amuou" e disse desse jeitinho: Deixa proutrora esse mate, que hoje estou muy cansado, de pelear com esse dragão, na lua que é meu pago..." (Sônia S. Ferri)

domingo, 12 de julho de 2009

Juramento de Hipócrates

Juramento de Hipócrates (extraído de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Juramento_de_Hip%C3%B3crates)

"Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça".
(Hipócrates)


Ah Hipócrates! Se pudesses ver hoje com que "louvor" alguns médicos (e já não se pode dizer que se trata de "uma minoria", pelo acréscimo com tem acontecido o genocídio de crianças e em alguns casos de suas mães), tem cumprido o juramento atribuído a ti, terias tanto do que te envergonhares.
A saúde do Brasil está em "estado de calamidade pública", assim como a segurança.
Meu Deus! Algum ser humano tem o poder de mudar isso? Tem alguém que manda nesse país, com poder suficiente para interditar a saúde dos estados brasileios? E não me venham dizer que o poder está na mão do povo, porque o povo não tem competência nem para cuidar cada um de si mesmo.
Quantas mães mais terão que morrer com seus bebês ainda no ventre? Quantas mães vão ter que perder seus filhos porque não há "L E I T O" disponível nos hospitais públicos? E que por falta de leitos como desculpas, os "M É D I C O S D E S T A T U S" vão deixar de prestar o atendimento aos que necessitam, atendimento esse que eles juraram dar: "Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva". Mas escrever o nome de uma maternidade e como chegar lá de ônibus no antebraço de uma gestante com a bolsa rompida, é o mesmo que dar-lhe substância abortiva.
"Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça". Rogo a Hipócrates que isso se cumpra com os "infelizes da medicina", que estão deixando nossas crianças morrerem, que estão deixando nosso povo morrer sem nenhum socorro, somente o descaso e o abandono...
Rogo a força superior e suprema que existe (preciso acreditar que exista essa força), que dê capacidade de reação a esse povo que dizem ter o poder de mudar o que está errado. E que essa força desça com pontaria certeira sobre os governantes que preferem fechar os olhos à ir em socorro de quem tanto necessita.
Ah Hipócrates...

(Sônia Smijevski Ferri)